[Empatia]

•17 de outubro de 2012 • Deixe um comentário

É complicado saber muito sobre os outros. Principalmente, saber sobre coisas que eles não te contam.

Ao menos não com o verbo.

Um olhar, um gesto, uma atitude. Dizem muito, se você souber interpretar.

No fundo, todas as pessoas possuem mecanismos parecidos. Não iguais, mas quase.

Mecanismos que às delatam a todo momento.

E quanto mais nos conhecemos, maior a confiança no sinal.

Nada mal se você for um cretino. Você terá um punhado de intuições, palpites, que provavelmente estão certos, sobre todos ao seu redor.

Pode desmascarar mentiras facilmente, perceber padrões, prever decisões. Pode usar isso ao seu favor.

Mas quando você não é um cretino, as coisas mudam de figura.

Porque nenhum palpite, nenhuma intuição é correta, até que aconteça. E nem todos eles acontecem.

E aí, sobram dois caminhos. O da culpa e o da angústia.

O da culpa, quando você acredita na sua intuição, sem dar chance de defesa para a pessoa.

O da angústia, quando você sabe estar certo, mas prefere acreditar no que o verbo, não o corpo, diz.

Nenhum dos dois caminhos são bons, e este tipo de “dom” não te ajuda em nada. Talvez, um pouco aqui, um pouco ali.

 

Mas não vale o sofrimento que vem no pacote.

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[Arrependimento]

•19 de junho de 2012 • Deixe um comentário

Estava na cozinha, fazendo um capuccino, pra passar a madrugada terminando algumas pendências.

Entre o turbilhão de pensamentos que me ocorrem quando estou, geralmente sozinho, acordado no meio da noite, um se destacou.

Chegou despretensioso, quase de fininho.

Uma memória, de um fato que ocorreu a pelo menos 5 anos. Data não muito precisa, já que sou péssimo em sentir o tempo passar.

Um acontecimento que ocorreu também em uma noite, não tão tarde quanto agora, mas que poderia perfeitamente ter sido.

Por telefone, disse e pensei coisas, que naquele dia, me pareciam certas. Uma pessoa deveria ouvir algumas verdades, de uma vez por todas. Estava cansado de fingir, de mentir, de me esconder.

Ora, eu já devia ter o que, meus 17, 18 anos? Era um homem de mente formada (assim pensava), tinha minhas opiniões e visões de mundo, e queria que elas fossem respeitadas.

Não aguentava mais uma determinada situação. Uma sinuca de bico.

Qualquer atitude, naquele tempo, sobre aquele assunto, seria errada.

Mas eu decidi tomar a pior de todas.

Separado do meu interlocutor por quilômetros de fios, despejei nele verdades que doíam demais serem ouvidas ou ditas.

Verdade que o orgulho, somado ao desespero, ignorância e indignação, impediam meu ouvinte de enxergar.

Eram verdades, de fato.

Mas eu às proclamei sem dó em uma pessoa extremamente fragilizada, que no momento, provavelmente passava pelo que era o pior momento de sua vida. E aqui lembro quem me conhece e informo quem não teve esse privilégio. Não costumo exagerar nessas coisas.

Não apenas isso. Além de estar passando pelo pior da vida, e ouvindo as verdades mais doídas, elas estavam sendo ditas pela pior pessoa que poderia dizer aquilo.

Eu.

Tais palavras feriram os ouvidos, a mente, o coração, o espírito e tudo o mais que pode ser ferido neste mundo e nos outros.

E, as lágrimas que agora borram minha visão, não vieram naquele tempo.

Afinal, eu estava orgulhoso de ter tomado a atitude que outros deveriam ter tomado, mas que preferiram passar a diante.

E hoje, essa lembrança, que me surge sem nenhum vínculo com o presente, nenhum acontecimento semelhante, me doeu fundo no coração.

Se eu já senti tanto remorso na vida, me esqueci.

Talvez, um dia, eu tenha coragem de pedir desculpas. Quem sabe. O tempo é sempre um inimigo nesses casos, e o arrependimento uma certeza para os orgulhosos e preguiçosos como eu.

Mas hoje, eu farei algo que nunca faço. Não por falta de vontade, mas por não me achar merecedor de tal privilégio.

Hoje, antes de dormir, eu vou rezar.

Rezar para que as crenças de meus pais estejam corretas, e que as palavras que eu disse aquele dia, realmente tenham ajudado meu ouvinte.

Rezar para que o arrependimento não me consuma após minha morte, se algo realmente existir.

Rezar para que eu já tenha sido perdoado, e rezar para que eu consiga me perdoar.

E rezar, em fim, para que minhas preces não sejam apenas palavras jogadas ao vento.

Herói – Donnovan

•17 de junho de 2012 • 1 Comentário

Cara. Entre outras coisas, uma face de uma moeda. Fadada a não conhecer a que habita do outro lado.

Algumas ironias são como as moedas. Conhecemos a cara, a coroa, mas o que importa não é nenhuma delas. O que importa é o miolo. Ali reside o valor. E ali reside a única semelhança entre ambas.

*******

Nascido e criado na escuridão. Tendo conhecido apenas trevas, desde sua origem até suas mais viscosas ramificações.

Fadado ao mais grandioso destino que sua realidade permitia.

Mas sentia algo errado. Sem saber o motivo ou origem, o que era pior.

E, quase por um acaso, veio a conhecer a luz.

E ficou fascinado.

Abandonou seu passado, seu presente e seu futuro, em troca de um ideal. Um ideal abstrato, intangível. Mas possível.

Tal choque às vezes deixa marcas. E às vezes, estas marcas cobrem o que estava ali anteriormente.

Recomeçar do zero, sem saber de onde veio, ou onde está, mas sabendo pra onde ir. O objetivo é tudo que nos resta, nos move.

É apenas uma questão de tempo até o atingirmos.

Mas o tempo é cruel. Passado, presente e futuro são tão entrelaçados quanto distantes.

E o choque traz novamente tudo de volta.

A realidade perfeita encontra a sua base deturpada, podre. O que antes era altruísmo vira redenção. E a conta ainda é grande. E o tempo é curto.

É fato que a vida não foi fácil, verdade. Mas o presente confortável começa a cobrar seus débitos.

E o que fazer quando tudo que se ama começa a ruir? Os amigos começam a desaparecer. A Ordem definha. Seu amor corre risco.

Existe uma nobre alternativa. Uma intervenção divina. O sacrifício final.

Trocar todos os prazeres que a liberdade proporciona, em troca do poder para proteger o que se ama.

De certo modo paradoxal, já que não é possível lembrar o que é amor. Existe apenas a missão, e a lembrança de que ela se originou por este sentimento.

E assim continuar vagando, sendo o Anjo protetor, sempre observando, intervindo, mas nunca se revelando. Pois a maior caridade, é aquela feita no anonimato.

Mas chega o momento que o tempo mostra novamente como é soberano. E vem cobrar as velhas dívidas.

Os sentimentos retornam, e o remorso é incontrolável. A sanidade se mostra fraca uma terceira vez, e a existência é ameaçada igualmente.

Todo o bem que foi feito, não passou de egoísmo. As máscaras não enganam mais. Por fora, o Anjo Protetor. Por dentro, o demônio arrependido.

Mas ainda existe uma chance. Uma chance rara.

Imagine se todo o mal que você já possuiu, possui ou possuirá pudesse ser contido em apenas um ser?

Todas as suas imperfeições e pecados, personificados em uma pessoa.

Um mortal.

*******

Um novo ideal. Uma nova missão.

Como ser definido, no fim? Assassino, Cavaleiro, Dragão, Líder, Amado, Anjo?

Uma última chance.

[Este texto é uma grande asneira]

•6 de junho de 2012 • Deixe um comentário

Eu entendo o direitista não tolerar o que é diferente do que ele pensa. Faz sentido.

Mas não entendo o alternativo, descolado, visionário, não tolerar o que é diferente do que ele pensa.

Afinal, a base de sustentação pro modo de vida de um é: “O que é bom pra mim, é bom pra todos”.

E do segundo, deveria ser algo como: “O que é bom pra você é bom pra você, o que é bom pra mim é bom pra mim, e vamos conviver com nossas diferenças”.

Mas, o que eu vejo de verdade, é um bando de pessoas que se encaixam em qualquer “movimento” em busca de uma identidade (talvez por não conseguir formar uma), absorvem aquilo igual papel na água e negam qualquer coisa que venha de fora do pacote.

Se tornam o mesmo que um direitista intolerante. Mas com visões diferentes.

Ou seja: usam a ideia de respeito à opinião e modo de vida alheio, apenas para criar seu próprio modo de vida igualmente preconceituoso.

E o que temos são dois grupos tentando ditar regras de comportamento. Um fincado nas tradições, e outro fincado em “novas idéias”. Mas ambos com a mesma proporção de qualidades e defeitos.

E aí vem a dica para os fortes.

Se você fica do lado dos direitistas, sofrerá o ódio dos “esquerdistas”. Se ficar do lado dos esquerdistas, sofre o ódio dos direitistas.

E se você de fato tenta criar uma identidade, filtrar o que você considera bom de cada lado pra sua vida, pensando ou não no bem-estar do próximo…

Se prepare. Você pode até não odiar nenhum dos “movimentos” que deu origem a sua identidade. Mas ela com certeza vai sofrer por não estar ligada a nenhum dos dois.

E assim a vida segue, com todo mundo achando que está certo, que todos os outros estão errados. Onde cada vez mais, um se preocupa menos com a opinião do outro, seja porque discorda, ou seja porque cansou de tentar entender alguém que nem se entende.

Mas, apesar disso, predomina a máscara da aceitação, já que o politicamente correto pra alguns, o estilo ou certo pra outros, é fingir que se importa.

[Abismo]

•1 de maio de 2012 • Deixe um comentário

Tem um ditado que diz: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Ou qualquer coisa assim, nunca fui muito bom em lembrar (nada) essas coisas.

Mas enfim, esta pérola de sabedoria me veio a cabeça esses dias, não me lembro mais o motivo (novidade), e eu estive pensando:

“O que será que tem de tão interessante pra se ver em um abismo?”

Se estivermos passeando dentro do Mono Blaine (Charlie Chuu-chuu), desfrutando de todo aquele luxo, quando o mesmo passa por cima do abismo, o senhor King até descreve um abismo interessante. Com uma névoa (verde? vermelha? branca? não lembro) preenchendo aquele vazio, e vez ou outra, criaturas abomináveis saíam da névoa e nos ofereciam seus horrores. Apesar de interessante, nada muito belo de se ver. E nada que eu queira que me olhe de volta, obrigado.

Mas saindo do universo da fantasia, atravessando uma porta qualquer e voltando para a terra (aquela real), temos o famoso Grand Cannion. Com certeza, um enorme buraco vazio. Sem graça.

Abismo de verdade, pra mim, são aqueles no fundo dos oceanos. Aqueles onde criaturas inimagináveis sobrevivem, longe de qualquer contato com o resto do mundo. Na verdade, desconhecendo qualquer coisa que não seja o abismo. Este sim, deve ser um abismo interessante.

Mas hora, a luz não chega naquele lugar e as condições atmosféricas não nos permitiriam sobreviver lá sem uma aparelhagem incômoda demais para poder observar alguma coisa. Sem contar que conseguiríamos ver poucos metros adiante, o que é no mínimo sem graça.

Então, meu pensamento me levou de volta à frase: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Bem, não tem muito o que ver no abismo, e o mesmo não tem olhos pra me ver.

Mas aí me lembrei de algo que eu dizia muito quando mais novo. Qualquer coisa sobre como poetas, pensadores, filósofos e diversos desocupados com a vida ganha de plantão gostavam de pegar uma informação limpa, clara, confiável e facilmente compreendida e estragar ela, tornando-a subjetiva, obscura e capaz de ser interpretada de diversas maneiras. Pior que isso, cada nova interpretação não está menos correta do que o sentido original da frase, que depois de um tempo, desconfio eu, o desocupado nem lembra mais qual era.

Partindo deste raciocínio, comecei a desmontar o pensamento, para ver se acho algum sentido nele.

Primeiramente o que seria o abismo? O sentido literal não me serve então, procurando um novo, comecei a pensar. Quando você pensa em observar um abismo, geralmente isso envolve olhar para baixo. Mais precisamente, olhar para baixo e para uma grande área vazia. E se olhássemos para cima, não existe o céu, uma imensa vastidão infinita? É, até tem alguma semelhança.

Mas a frase em si inspira um pouco de medo. Pensando nisso, cheguei a conclusão: “Bom, geralmente quando queremos buscar o divino, contemplamos o céu. Logo, o abismo não pode ser nada menos que maligno”.

Modo interessante de pensar. Mas ainda não me satisfaz.

Então, parti para a segunda parte do dito: “…o abismo olha para você.”

Aqui, as coisas ficam mais interessantes. Primeiramente: Abismo não te olho.

Dito isto, escolhi entender que o termo “olha” significa comunicação de algum tipo e, pensando em comunicação com um abismo, eu só consigo me lembrar de uma coisa: o eco.

E, neste ponto, eu comecei a formar a minha interpretação da coisa.

Se, quando olhamos o abismo, ou seja, nos comunicamos com o mesmo, ele nos olha de volta, logo, ele se comunica de volta.

Mas, assim como um abismo não tem muito o que “dizer”, e assim como o eco é apenas um “ricochete” de som, logo:

“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo te mostra você.”

Aí sim, eu vi lucro.

Não tem muito o que se ver em um abismo. Logo, quando você fica muito tempo contemplando o nada, você percebe que está ali, sozinho. E a única coisa que você tem pra ver é você mesmo.

Faz sentido. Ao menos pra mim, e pra mais alguns talvez.

Como eu disse antes, o autor provavelmente nunca quis dizer isso. Mas, azar o dele de não ter explicado direito.

Continue lendo ‘[Abismo]’

[Pensamentos]

•26 de abril de 2012 • 1 Comentário

Pensamentos. Em excesso, amontoados, procurando espaço. Alguns para se acomodar, outros para expandir.

Memória de longo prazo atropelando as mais recentes. Ninguém se respeita na minha mente.

O egoísmo impera e cada problema se acha superior ao outro. E se não for o bastante, mais problemático ele se torna, só para se afirmar.

Processos de rotina não funcionam mais.

Comer, beber, dormir, respirar. Até funcionam, mas não necessariamente nesta ordem.

Qualquer outra atividade que requer um mínimo de disciplina, não aparece.

Provavelmente está presa no funil que é a capacidade de processar tantos pensamentos. Brigando para encontrar espaço entre problemas, idéias, compromissos…

Escrever já é difícil.

Excesso de estímulos? Vida acelerada? Falta de disciplina?

A resposta eu sei que possuo.

Só me resta esperar que ela consiga escapar pela apertada passagem, amontoada de pensamentos.

[Desgraça Caiçara]

•4 de abril de 2012 • 3 Comentários

Ontem foi um dos dias mais caótico e engraçados da minha vida. Aconteceram tantas coisas que se eu fizesse uma narrativa aqui, a coisa ficaria enorme, confusa e, principalmente, seria muito trabalhoso. Logo, preferi organizar em alguns tópicos os “causos” de ontem.

***

– Chegar atrasado na Fatec pra prova do Rui(m). Até aí beleza, normal.

– Felizes pois iríamos embora cedo, fomos surpreendidos pelo temporal que desabou em Santos. Enfim, duas horas de zueira na cantina, esperando a chuva diminuir, já que não queríamos chegar encharcados no carro…

– Tentei pegar um café na cantina, a máquina estava desligada, fiquei na Coca. Erro fatal.

– Após a chuva diminuir, ir até o carro estacionado na outra esquina, de calça e tênis, com água até o meio da canela.

– Chegando no carro, todo encharcado da cintura pra baixo, tirei tênis, meia e calça (sim, a calça) e fui embora dirigindo de cueca.

– Dentro do carro, vidro embaçado, chuva com vento, visibilidade de 3m e nada mais. Coletei os amigos na porta da Fatec, e partimos pra aventura…

Transito apocalíptico. Não lento, não pesado, mas parado. Andando uns 5m a cada 10 minutos, quando muito. A mulecada já sem esperanças dentro do carro, e rindo pra não chorar, já que não tinha o que fazer mesmo. Aí começaram a acontecer os causos mais tensos…

– Me deu uma vontade enorme de mijar, por conta daquela lata desgraçada de Coca.

– Pessoas passando com água até a cintura, todas molhadas, mas de guarda-chuva, pra não molhar do peito pra cima!?!

– Carros atravessados na esquina, fechando a rua!?!

– Carros estacionados mergulhados até o vidro!

– Começo a cogitar a possibilidade de sair do carro, encostar numa árvore e mijar ali mesmo. O trânsito tava parado mesmo. Mas eu resisti…

– Começamos a tentar fazer o código do GTA nos celulares, pra summonar o helicóptero. Sem sucesso. Ficamos com Arctic Monkeys tocando mesmo. Ao menos, tornou o ambiente melhor…

– Do outro lado, na pista sentido ponta da praia, o trânsito estava vazio. Vira e meche passava um carro e jogava água na galera que estava entre as duas pistas. Um pobre ciclista já todo molhado tomou um PUTA BANHO quando um carro passou a milhão, bem do nosso lado. Geral do carro cascou o bico, e eu não me contive, e gritei pro cara “SE FUDEU!!”, fazendo sinal de joinha. Ao menos o maluco tava se divertindo, e levou na esportiva.

– Eis que, na outra pista, uma mulher começa a manobrar o carro, sobe de ré na CALÇADA (!!!!) e continua dando ré, devagarzinho, sem objetividade, com o carro na calçada. Não havia retorno por perto, não havia trânsito na faixa dela, não havia muita poça… Enfim, a mulher começou a andar de ré com o carro na calçada. Sinal caótico do apocalipse? NÃO! Apenas o Carl Jhonson causando em Santos.

– Nesse momento, a natureza me chamava. Eu ia passar, nó mínimo, 2 horas no trânsito. Todos já tinham ligado para suas casas e avisado sobre o atraso. Eu comecei a pensar: “Eu não vou ficar duas horas apertado pra mijar, com esse trânsito parado, passando nervoso”. Já estava dirigindo de cueca mesmo, naquele caos, tomei uma decisão e comuniquei a mulecada. Esperei o trânsito andar e parar denovo e…

– Abri a porta do carro, levantei e mijei na água que corria feroz no meio fio. Mas mijei MUITO, aquela lata de Coca desgraçada me fudeu. Nesse momento, a mulecada foi a loucura, e compreendemos nossa real situação. Estávamos fudidos, então que se foda a porra toda. Enquanto mijava, avistei ao longe o trânsito andando! Minha fé ia embora com as últimas gotas de urina. Mas eu não ia “cortar o mijo”, já tava no inferno, abracei o capeta. Entretanto, como meus movimentos são friamente calculados, terminei minhas necessidades biológicas bem na hora que o carro da frente começou a andar. EPIC SUCCESS!

– A mulecada riu uma meia hora da minha façanha.

– Começamos a discutir a burrice dos motoqueiros, cortando o trânsito, com a calçada livre pra eles passarem. A porra tava toda zuada mesmo, e nenhum pedestre, a essa altura, utilizava a calçada.

– Pedestres andavam entre os carros no meio da rua!? Sempre completamente molhados, sempre de guarda-chuva!

– Um motoqueiro passou a minha direita, deu a volta em um carro que estava a “dois carros” de distância, voltou, contornou o carro na minha frente, e continuou. Me lembrei daquele jogo da minhoquinha dos celulares antigos.

– Mais um fluxo de motoqueiros ziguezagueando quando, finalmente, mais um CJ aparece de moto e finalmente sobe na calçada! A galera dentro do carro aplaude!

– Uma senhora magrela aparece na frente da igreja do Embaré (sim, ainda estávamos lá) segurando um saco preto na cabeça. Dorgas, larguei! Agora sou o Dementador protegendo Hogwarts! Ou talvez ela estivesse espalhando a palavra de Sauron.

– Começam a surgir as primeiras infos. Um maluco no retorno, vindo da via SEM TRÂNSITO sentido ponta da praia, e tentando entrar no caos que estávamos informa: “Ta tudo entupido lá na frente, no boqueirão (??). Ninguém ta passando!”. Informação valiosa essa.

– Começam a surgir as “gatas molhadas” de Santos. Algo de bom no meio do inferno. Não, não tínhamos pena das meninas encharcadas.

– A mãe do Victor liga, e da a entender que quer que ele de um jeito de que ele chegue em casa logo. Ele se revolta e desliga. Resmunga que mãe é foda, quer que ele vá voando, ou algo assim, quando o Ricardo pergunta: “Mas por que tu ligou pra ela denovo?” Victor, em claro descontrole, GRITA: “ELA QUE LIGOU!”. 5 minutos de zueira com a situação. E aqui o Vitor perdeu sua fé.

– Ainda em frente a igreja (sim, ficamos tempo pra caralho ali) um senhor bem vestido começa a circular entre os carros, ninguém entendendo nada.  Até que ele aparece na nossa janela do passageiro, do lado do Bruno, que quase infarta, pedindo para manobrar o carro, porque ele queria entrar no beco da igreja.

– Checamos o GPS do Brunno, que abriu já com nossa localização atualizada. Allan verifica a tela e pergunta: “Por que seu GPS ta abrindo na Espanha velho!?” 10 minutos de zueira. Aqui, o Allan perdeu sua fé.

– Juntando a informação recolhida no caos, nossa gana de chegar em casa e ao mesmo tempo de sair dali, traçamos nova rota de fuga. Entraríamos no canal 4, afinal o Brunno, que fez pós doutorado nos canais de Santos, afirmou que os canais jamais encheriam. Dali, pegaríamos a Francisco Glicério. Ali é meu território. Sou mais íntimo daquela avenida do que o Sena era de Interlagos. Mentira.

– Começa a dura jornada de mudança de faixa. Estávamos na faixa da esquerda, já que frequentemente a do meio e da direita SUMIAM debaixo d’água, decidi ficar ali mesmo. Agora, tínhamos 10 metros mais ou menos pra ir da esquerda pra direita. Meus vastos conhecimentos de GTA me permitiram imbicar insanamente entre os carros, e conseguir me enfiar na faixa correta.

– FINALMENTE conseguimos entrar no canal. A rua estava sem trânsito, mas não sem caos.

– Uma viatura parada, e um policial parado na beira do canal. Mijando? Procurando um corpo? Perdido? Ninguém sabe.

– Após chegar em um cruzamento, estranhamos o trânsito no mesmo. Checamos o outro lado do canal, sentido praia. Estava uma piscina. A credibilidade do Brunno foi abalada, assim como sua fé em Deus ao ver aquilo.

– Chegamos a um trecho da rua sem luz. Estranhei ao ver duas luzes brancas muito fortes. Por um momento, revisei meus arquivos cerebrais, para confirmar: Luzes traseiras de um carro são vermelhas, não? Pois é, tinha um carro vindo na contramão. Terra sem lei. Sem Deus.

– Chegamos à rotatória! Salvação! Caímos na Glicério, a chuva retornou, mas o trânsito andava. Rua em obras, faixas fechadas, barbeiragens mil, mas ainda sim, muito melhor que a praia.

– Cogita-se parar no Extra para um lanche. A ideia é descartada.

– Chegando no orquidário, apresentei para a galera o paralelepípedo, e expliquei que o mesmo não era seguro, pois o carro perde toda sua tração. Uma verdadeira aula de atrito.

– CHEGAMOS EM SÃO VICENTE! As coisas se normalizaram, e parecia uma volta casual da FATEC. Pelos nossos cálculos, as pessoas que estavam ao nosso lado na frente da igreja, ainda deveriam estar lá.

***

Enfim, este é um pequeno resumo do que aconteceu ontem. Perdão se esqueci algum detalhe, mas a situação era extrema e a zueira beirava a insanidade. E olha que a insanidade nos cercava. O importante é que eu ri demais, e vou rir a semana inteira disso ainda. E o pior de tudo é que só quando chegamos em casa, percebemos: Não tiramos NEM UMA foto, nem um vídeo, um desenho livre, NADA! Mas fazer o que, acontece né.

***

PS: Fico imaginando a reação da pessoa no carro atrás do meu, vendo um cara saindo de cueca samba-canção e mijando do lado do carro. Talvez, para ela, aquilo foi o equivalente ao Bruno ver o canal 4 alagado. A fé em Deus dela deve ter sumido naquele momento.