[Abismo]

Tem um ditado que diz: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Ou qualquer coisa assim, nunca fui muito bom em lembrar (nada) essas coisas.

Mas enfim, esta pérola de sabedoria me veio a cabeça esses dias, não me lembro mais o motivo (novidade), e eu estive pensando:

“O que será que tem de tão interessante pra se ver em um abismo?”

Se estivermos passeando dentro do Mono Blaine (Charlie Chuu-chuu), desfrutando de todo aquele luxo, quando o mesmo passa por cima do abismo, o senhor King até descreve um abismo interessante. Com uma névoa (verde? vermelha? branca? não lembro) preenchendo aquele vazio, e vez ou outra, criaturas abomináveis saíam da névoa e nos ofereciam seus horrores. Apesar de interessante, nada muito belo de se ver. E nada que eu queira que me olhe de volta, obrigado.

Mas saindo do universo da fantasia, atravessando uma porta qualquer e voltando para a terra (aquela real), temos o famoso Grand Cannion. Com certeza, um enorme buraco vazio. Sem graça.

Abismo de verdade, pra mim, são aqueles no fundo dos oceanos. Aqueles onde criaturas inimagináveis sobrevivem, longe de qualquer contato com o resto do mundo. Na verdade, desconhecendo qualquer coisa que não seja o abismo. Este sim, deve ser um abismo interessante.

Mas hora, a luz não chega naquele lugar e as condições atmosféricas não nos permitiriam sobreviver lá sem uma aparelhagem incômoda demais para poder observar alguma coisa. Sem contar que conseguiríamos ver poucos metros adiante, o que é no mínimo sem graça.

Então, meu pensamento me levou de volta à frase: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Bem, não tem muito o que ver no abismo, e o mesmo não tem olhos pra me ver.

Mas aí me lembrei de algo que eu dizia muito quando mais novo. Qualquer coisa sobre como poetas, pensadores, filósofos e diversos desocupados com a vida ganha de plantão gostavam de pegar uma informação limpa, clara, confiável e facilmente compreendida e estragar ela, tornando-a subjetiva, obscura e capaz de ser interpretada de diversas maneiras. Pior que isso, cada nova interpretação não está menos correta do que o sentido original da frase, que depois de um tempo, desconfio eu, o desocupado nem lembra mais qual era.

Partindo deste raciocínio, comecei a desmontar o pensamento, para ver se acho algum sentido nele.

Primeiramente o que seria o abismo? O sentido literal não me serve então, procurando um novo, comecei a pensar. Quando você pensa em observar um abismo, geralmente isso envolve olhar para baixo. Mais precisamente, olhar para baixo e para uma grande área vazia. E se olhássemos para cima, não existe o céu, uma imensa vastidão infinita? É, até tem alguma semelhança.

Mas a frase em si inspira um pouco de medo. Pensando nisso, cheguei a conclusão: “Bom, geralmente quando queremos buscar o divino, contemplamos o céu. Logo, o abismo não pode ser nada menos que maligno”.

Modo interessante de pensar. Mas ainda não me satisfaz.

Então, parti para a segunda parte do dito: “…o abismo olha para você.”

Aqui, as coisas ficam mais interessantes. Primeiramente: Abismo não te olho.

Dito isto, escolhi entender que o termo “olha” significa comunicação de algum tipo e, pensando em comunicação com um abismo, eu só consigo me lembrar de uma coisa: o eco.

E, neste ponto, eu comecei a formar a minha interpretação da coisa.

Se, quando olhamos o abismo, ou seja, nos comunicamos com o mesmo, ele nos olha de volta, logo, ele se comunica de volta.

Mas, assim como um abismo não tem muito o que “dizer”, e assim como o eco é apenas um “ricochete” de som, logo:

“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo te mostra você.”

Aí sim, eu vi lucro.

Não tem muito o que se ver em um abismo. Logo, quando você fica muito tempo contemplando o nada, você percebe que está ali, sozinho. E a única coisa que você tem pra ver é você mesmo.

Faz sentido. Ao menos pra mim, e pra mais alguns talvez.

Como eu disse antes, o autor provavelmente nunca quis dizer isso. Mas, azar o dele de não ter explicado direito.

A frase: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”, contida na obra “Beyond Good and Evil” é de autoria de Friedrich Wilhelm Nietzsche (15 outubro de 1844 – 25 Agosto 1900).

Nietzsche foi um filósofo alemão, cujas críticas da cultura contemporânea, religião e filosofia eram centrada em uma questão básica sobre o fundamento dos valores e da moral.

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~ por Dunncan em 1 de maio de 2012.

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