[Arrependimento]

Estava na cozinha, fazendo um capuccino, pra passar a madrugada terminando algumas pendências.

Entre o turbilhão de pensamentos que me ocorrem quando estou, geralmente sozinho, acordado no meio da noite, um se destacou.

Chegou despretensioso, quase de fininho.

Uma memória, de um fato que ocorreu a pelo menos 5 anos. Data não muito precisa, já que sou péssimo em sentir o tempo passar.

Um acontecimento que ocorreu também em uma noite, não tão tarde quanto agora, mas que poderia perfeitamente ter sido.

Por telefone, disse e pensei coisas, que naquele dia, me pareciam certas. Uma pessoa deveria ouvir algumas verdades, de uma vez por todas. Estava cansado de fingir, de mentir, de me esconder.

Ora, eu já devia ter o que, meus 17, 18 anos? Era um homem de mente formada (assim pensava), tinha minhas opiniões e visões de mundo, e queria que elas fossem respeitadas.

Não aguentava mais uma determinada situação. Uma sinuca de bico.

Qualquer atitude, naquele tempo, sobre aquele assunto, seria errada.

Mas eu decidi tomar a pior de todas.

Separado do meu interlocutor por quilômetros de fios, despejei nele verdades que doíam demais serem ouvidas ou ditas.

Verdade que o orgulho, somado ao desespero, ignorância e indignação, impediam meu ouvinte de enxergar.

Eram verdades, de fato.

Mas eu às proclamei sem dó em uma pessoa extremamente fragilizada, que no momento, provavelmente passava pelo que era o pior momento de sua vida. E aqui lembro quem me conhece e informo quem não teve esse privilégio. Não costumo exagerar nessas coisas.

Não apenas isso. Além de estar passando pelo pior da vida, e ouvindo as verdades mais doídas, elas estavam sendo ditas pela pior pessoa que poderia dizer aquilo.

Eu.

Tais palavras feriram os ouvidos, a mente, o coração, o espírito e tudo o mais que pode ser ferido neste mundo e nos outros.

E, as lágrimas que agora borram minha visão, não vieram naquele tempo.

Afinal, eu estava orgulhoso de ter tomado a atitude que outros deveriam ter tomado, mas que preferiram passar a diante.

E hoje, essa lembrança, que me surge sem nenhum vínculo com o presente, nenhum acontecimento semelhante, me doeu fundo no coração.

Se eu já senti tanto remorso na vida, me esqueci.

Talvez, um dia, eu tenha coragem de pedir desculpas. Quem sabe. O tempo é sempre um inimigo nesses casos, e o arrependimento uma certeza para os orgulhosos e preguiçosos como eu.

Mas hoje, eu farei algo que nunca faço. Não por falta de vontade, mas por não me achar merecedor de tal privilégio.

Hoje, antes de dormir, eu vou rezar.

Rezar para que as crenças de meus pais estejam corretas, e que as palavras que eu disse aquele dia, realmente tenham ajudado meu ouvinte.

Rezar para que o arrependimento não me consuma após minha morte, se algo realmente existir.

Rezar para que eu já tenha sido perdoado, e rezar para que eu consiga me perdoar.

E rezar, em fim, para que minhas preces não sejam apenas palavras jogadas ao vento.

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~ por Dunncan em 19 de junho de 2012.

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